Exposição
ENTRETANTO 2025
Guilherme Lima e Paula Aguilera - Brazil
Galeria Instituto Ser Criativo - Nova Friburgo-RJ
Exposição fotográfica de Guilherme Lima construída a partir da história de Paula Aguilera.
O projeto nasceu da experiência de Paula com o câncer de mama, mas propõe uma reflexão que ultrapassa o adoecimento. Por meio da fotografia e de referências da história da arte, a exposição aborda temas como transformações físicas, vulnerabilidade, afeto, introspecção e redescoberta de si.
O título “ENTRETANTO” carrega um duplo sentido: o intervalo entre o antes e o depois, quando acontecimentos inesperados transformam nossa maneira de estar no mundo, e a ideia de que, mesmo em meio às adversidades, a vida continua oferecendo momentos de beleza, alegria e encantamento. A exposição convida o público a refletir sobre como a arte pode nos acompanhar nesses períodos, oferecendo possibilidades de expressão, elaboração do sofrimento e construção de novos sentidos.
A exposição também possui uma dimensão educativa. As fotografias estabelecem diálogos com obras de diferentes períodos da história da arte, aproximando o público de artistas e de suas formas de representar a experiência humana.



Dante Gabriel Rossetti
Bocca Baciata 1859
Cabelos e Flores
Quando do diagnóstico vivíamos em plena pandemia. Paula estava isolada em um sítio em Friburgo e exibia os cabelos longos como jamais havia usado antes marcando aquele momento em sua vida. Foi pensando em fazer uma reverência a essa identidade feminina tão forte que o ensaio foi realizado.
A obra de Rosseti marca uma transição na sua carreira e no movimento Pré-rafaelita. Diferente das madonas idealizadas por outros artistas, o pintor apresenta uma mulher terrena, de beleza intensa e consciente da sua sensualidade, uma beleza que se transforma e se renova. E assim, a obra nos inspirou a eternizar a essência daquele momento.
Quando o mundo parecia virar de ponta cabeça, Paula quis fazer o primeiro registro dessa forma. As flores no cabelo serviram para representar um ciclo de renovação mais colorido da vida, diante de toda transformação que passaria durante sua travessia na luta contra o câncer de mama.


Caravaggio
David com a Cabeça de Golias 1609–1610
Se Preparando para a Travessia
Paula resolveu cortar os cabelos antes que a quimioterapia os fizesse cair. Ela os exibe não como um troféu, mas como um momento de coragem e preparação para a travessia. A semelhança com a obra de Caravaggio não vem só com o gesto, Davi não usa armadura e não tem os músculos dos soldados de Saul, é apenas um adolescente com sua funda e uma pedra, além de muita fé e coragem.
Davi com a Cabeça do Golias não é uma celebração, o rosto melancólico não representa a alegria da vitória, mas algo de piedade e um fardo sobre os ombros. A obra de Caravaggio representa o fim de uma batalha, enquanto a foto da Paula, num salão de beleza, num sábado à tarde e de máscara no rosto devido a pandemia representa apenas o começo. Em ambos os casos a exposição é um ato de coragem e ao mostrar o cabelo ela também empunha sua espada.


Henry Fuseli
O Pesadelo 1781
O Despertar em Mim
Paula aparece agora com a cabeça completamente raspada em um gesto de rasgar a própria roupa. É um momento doloroso e transformador. A imagem em preto e branco destaca o ambiente clean, onde tudo está iluminado. Não é uma rendição, é uma metamorfose para que uma nova Paula comece a ressurgir.
Em Fuseli o corpo parece imóvel no escuro, adormecido sob o peso sombrio do invisível, possuída pelo incubo em seu peito, enquanto um cavalo está à espreita ao fundo. É claustrofóbico e carregados de símbolos, é o inconsciente. Seria a clássica imagem da paralisia do sono. O corpo no Pesadelo de Fuseli está imóvel, passivo. Na foto, Paula está desperta, em transformação, em metamorfose.

Quietude e Melancolia
Durante o tratamento momentos de quietude, melancolia e cansaço também fazem parte do processo. Sem que Paula pudesse perceber a câmera capturou seu rosto em lágrimas num momento íntimo de vulnerabilidade.
É essa desestruturação emocional tão humana que dialoga com a obra de Pablo Picasso. O sofrimento de Dora Maar é visível em um Mulher Chorando, mesmo estilhaçada em uma pintura cubista. Uma mulher em luto pela violência da guerra e pelos filhos mortos.
A foto, ao mesmo tempo que recusa a romantização não anula sua força, mas ecoa a sua intensidade emocional, como se ela dissesse: “Isso é difícil, mas ainda estou aqui”.

Pablo Picasso
Mulher Chorando 1937


Edvard Munch
A Menina Doente 1896
A Última Quimioterapia
Paula celebra a última sessão de quimioterapia, o cenário decorado marca o fim de um ciclo. E vivenciar este momento ao lado de quem nunca soltou a sua mão é muito significativo, porque eterniza o aconchego do amor incondicional e a importância de uma rede de apoio.
A relação com a obra de Edvard Munch, muito embora tenha sido construída de forma espontânea, não ocorre de forma aleatória, Much registra o peso da vulnerabilidade e a importância do vínculo profundo e acolhedor diante da enfermidade. O amor maternal vence o sofrimento e sustenta a cura.


Henri Matisse
Lorette com Turbante e Colete Amarelo 1917


Adolfo Belimbau
A Menina da Borboleta
1845–1938


Frida Kahlo
A Coluna Quebrada 1944


Henri Matisse
Retrato de Greta Prozor 1916


O Turbante Azul
Ao surgir usando um turbante azul e amarelo olhando diretamente para a câmera Paula revela uma beleza que nem ela sabia que poderia existir naquele momento. Ela começa a reconstruir sua autoestima e explora novas maneiras de se apresentar ao mundo. O turbante passa de um recurso diante da perda dos cabelos para a descoberta de novas formas de se apresentar ao mundo.
Matisse pintou Lorette cerca de 27 vezes e o turbante não era um acessório qualquer, mas um elemento de composição, uma estrutura criada para transformar a modelo em uma presença enigmática e magnética. Essa conversa entre a fotografia e a obra de arte se dá para além da coincidência cromática, Paula transforma o seu estilo e mantém o olhar fixo para o observador tomando para si a sua própria narrativa.
Dançando com a Borboleta
Paula percebeu uma folha se movendo de forma estranha no teto da garagem, ao notar que era uma borboleta presa a uma teia, conseguiu libertá-la e, contra todas as expectativas, a borboleta permaneceu em sua mão fazendo aflorar o sorriso, logo as duas saem dançando pelo jardim.
A relação com a obra A Menina e a Borboleta do pintor italiano Adolfo Belimbau se deu através de um insight. Ainda durante a pesquisa sobre obras de arte que poderiam envolver todos os momentos que permeia o tratamento, uma garota com uma borboleta nas mãos passou pelos nossos olhos, sem nunca imaginarmos que tal coincidência poderia tornar-se realidade.
Na história da arte a metáfora da borboleta representa em sua maioria a transitoriedade da vida, a metamorfose, a ressurreição. Belimbau pintou o momento efêmero de delicadeza, a fotografia da Paula registra a celebração da vida e materializa o conceito do projeto.
De peito Aberto
Preparando-se para o seu 33º aniversário, Paula, enquanto se arruma, abre espontaneamente o vestido e revela os drenos ainda preso ao seu corpo. Um misto de vulnerabilidade e força tomam conta do ambiente.
Por sua figura feminina no mundo da arte e a relação profunda da sua vida pessoal com o seu trabalho, Frida Kahlo também permeou o projeto. Na obra Coluna Quebrada seu tronco está aberto e sem disfarce. Um espartilho de metal sustenta um corpo atravessado por pregos. Paula nos mostra um corpo sustentado por um sutiã cirúrgico após a mastectomia, presos a ele estão as bolsas de drenagem, os tubos e os curativos. Uma registro da sua própria resistência.
Azul Floral e Elegância
A luz do dia ilumina graciosamente a sala de estar, com seu chapéu branco e seu vestido azul floral, Paula senta-se elegantemente no sofá de casa. É o dia do seu 33º aniversário e ela está imersa no tempo, direcionando o olhar para a janela.
A pose clássica e solene logo chamou atenção pela semelhança com a pose sóbria e elegante de Greta Prozor pintada por Matisse. Greta era uma atriz, uma mulher que se apresentava ao mundo e sua pose transcende a mera representação física. Paula apresenta sua força no silêncio do olhar feminino em um momento de profunda transformação interior.
Sob o Olhar Divino
O ensaio foi realizado durante uma pausa na radioterapia. Encostada numa grande pedra, Paula deita a cabeça para trás e o gesto aliado ao movimento das mãos revela um leve tom de angústia e desespero, no exato momento em que a água do mar invade a faixa de areia onde ela se encontra.
Era um dia frio e a escolha da praia se deu porque a ideia do ensaio foi todo penando para ser em preto e branco como referência ao filme Sétimo Selo do Sueco Ingmar Bergman. A relação com a obra de Coubert se deu na tensão do gesto de vulnerabilidade, o artista retrata a si mesmo em desespero de forma crua. Na fotografia Paula é vista de cima e dialoga com olha divino que tudo vê, com a tradição religiosa.
Já a água que invade a faixa de areia e avança sobre seus pés funciona como um batismo de purificação e renovação transformando sua angústia num testemunho de arte e sobrevivência.



Rembrandt
A Lição de Anatomia do Dr. Tulp
1632


Mulher Maravilha
Luis García-Lopez
DC Comics Style Guide 1982
Reconstrução da Vida
O procedimento do aumento mamário é realizado no mesmo dia da retirada dos drenos e pontos. A pele precisa ser esticada aos poucos, em várias sessões e antes da radioterapia, para não perder a elasticidade e receber o silicone na reconstrução final. Paula deitada com uma luz direcionada sobre a mama enquanto o médico faz o procedimento nos fez lembrar imediatamente da obra Lição de Anatomia de Rembrandt.
O pintor utiliza a técnica do chiaroscuro onde a luz revela a anatomia, um objeto de estudo, uma narrativa dramática e teatral. Na fotografia a atmosfera visual é a mesma, mas a luz agora, ilumina o ato e revela o início da reconstrução da vida, transformando o procedimento clínico em arte e resistência.
O Surgimento da Guerreira
Paula está usando uma camiseta com o W, símbolo do personagem da Mulher Maravilha, fundido artisticamente ao laço rosa, símbolo de empoderamento das mulheres que enfrentam o tratamento do câncer de mama. A imagem da heroína personifica força inabalável, coragem e resiliência, ou seja, uma guerreira (Warrior). As pontas das letras se transformam no laço rosa e transforma a saúde da mulher no arquétipo da super-heroina.
O mito do personagem nasceu da figura de uma criança no barro, recebendo o dom da vida através da Deusa Afrodite que deu a ela a sabedoria de Atena, a beleza de Afrodite e a Velocidade de Hermes e a batizou com o nome de Diana. Mas a personalidade e os ideias foram influenciados por duas mulheres revolucionárias: Elizabeth Holloway Marstson e Oive Byrne, ambas acadêmicas e de pensamentos independentes. Criada em 1941 em plena Segunda Guerra mundial por William Moulton Marston a personagem foi concebida como propaganda dos ideais feministas da época.


Edward Hopper
Sol da Manhã 1952
Sol da Manhã
Paula costumava sentar-se no meio da cama para sentir o sol que entrava pela janela do quarto. O cabelo já bem mais crescido apresentava novos ares. O ritual trouxe espontaneamente para a atmosfera de Edward Hopper, a pose é quase uma recriação da obra Sol da Manhã.
A luz que esculpe o corpo de Paula pela manhã é praticamente idêntica à obra e reflete um hábito real. O quarto em Hopper é vazio de memória e a mulher aguarda o dia de maneira silenciosa e impessoal. Na fotografia o quarto está cheio de história, um espelho oval antigo, reflexos de objetos, um crucifixo na parede e pedaços de tinta descascada. Paula está sozinha, mas cercada de memórias vivas.


Alexej von Jawlensky
Retrato de Alexander Sakharov 1909
A celebração da Vida
Paula surge resiliente e inabalável com seu vestido vermelho em sua poltrona branca. Ela é testemunha de uma travessia poderosa que celebra o ser humano extraordinário que surge das adversidades, não se vê como heroína, mas apenas uma mulher vivendo a sua vida um passo de cada vez.
Jawlensky pintou o bailarino Sacharoff com uma pose de quem domina o próprio corpo e uma energia que transmite uma presença de quem sabe o lugar que ocupa no mundo, o homem que reinventou a dança. Paula revela o amor por si próprio e o amor pela vida representada no seu vestido vermelho. O olhar, assim como o olhar de Sacharoff, atravessa o espectador, é um olhar frontal: “estou aqui, não adianta fugir dos meus olhos”.
